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“A fotografia é um bom meio de mostrar às gerações futuras um modo de vida que temo estar em extinção” – Entrevista a Rui Pires

Rui Pires é um fotógrafo português que foi já várias vezes premiado tanto a nível nacional como internacional. Membro da Photographic Society of America, a sua especialização é a fotografia documental, sobretudo a preto e branco.

Momentos rurais | Rui Pires

Em 2006 iniciou o ambicioso projecto “Momentos Rurais“, onde visa capturar a essência da vida longe da metrópole lusa, e dar a conhecer ao mundo a realidade actual portuguesa. Na Toprural estávamos bastante interessados em descobrir a visão do Rui em relação ao turismo rural, e conhecer melhor o seu trabalho. Por isso decidimos entrevistá-lo. Eis o resultado:

Rui, já realiza fotografia documental há muitos anos, sobretudo no âmbito rural. Como surgiu esta dedicação?
A minha família do lado paterno tem origens em meios rurais da Beira Alta. Desde muito novo que comecei a passar muito tempo com os meus avós nestes meios essencialmente rurais, essencialmente férias de verão. Essa memórias de infância, de um Portugal profundamente rural onde o homem vivia em harmonia com a natureza, os animais e as suas culturas levaram-me a iniciar este projecto, “Momentos Rurais”, nas poucas aldeias portuguesas que ainda vivem essencialmente da agricultura e pastorícia de uma forma comunitária.

A fotografia é um bom meio de mostrar às gerações futuras um modo de vida que temo estar em extinção, e que decerto não vão ter oportunidade de conhecer. Embora me pareça que ultimamente o designado “êxodo rural” tenha abrandado, devido à crise económica e níveis de desemprego nas grandes cidades. Mesmo os mais novos sentem alguma dificuldade em sair da aldeia por questões económicas. Por um lado, isso pode potenciar uma diminuição da desertificação das nossas aldeias; por outro, é essencial apoiá-los a desenvolverem projectos sustentáveis que lhes permitam a vida na aldeia.

Que obstáculos encontra neste tipo de projecto?
A nível de projectos de Turismo Rural, o único obstáculo que se me afigura é a mesma crise económica que referi anteriormente. Por um lado, a escassez de crédito para iniciar projectos nesta área; por outro, a falta de poder de compra, o custo dos combustíveis, as portagens nas SCUTS, e tudo isso que cada vez mais cria obstáculos à deslocação de turistas para os meios rurais.

No que diz respeito às aldeias, como vê o papel do Turismo Rural em relação às mesmas? Acha que este poderá ter algum papel decisivo na revitalização de algumas povoações?
Ultimamente tenho desenvolvido um projecto documental no Norte de África onde é possível encontrar muitas casas de aldeia a serem reconvertidas para turismo, um pouco do que é feito cá em Portugal. Antigas “Kasbahs” (edificações fortificadas) transformadas em albergues rurais e em hotéis. Todas essas iniciativas assentam num forte sentido comunitário, onde por cada turista que recebem, uma determinada verba resulta para projectos de apoio à aldeia, às suas cooperativas de artesanato, aos grupos culturais e até para projectos de apoio a pessoas da própria aldeia com incapacidades e doenças. Por outro lado também criam postos de trabalho para a juventude local, tanto a nível interno da própria unidade hoteleira como a nível externo, nomeadamente a guias, guias de montanha, grupos de musica tradicional, etc.

Acho um bom exemplo a aplicar cá, embora também conheça casos destes no nosso país. No entanto, o problema por cá derivado da crise é a própria sustentabilidade de muitos projectos deste tipo, não sendo possível aos mesmos apoiar financeiramente projectos satélite com vista a dinamizar a aldeia onde estão incluídos.

Está para breve o lançamento do livro “Aldeias de Portugal – Histórias e Tradições de Paulo Costa, e com fotografia sua. No decorrer do processo, onde ficava hospedado? E além da preocupação do livro com a preservação da tradição e cultura portuguesa, que impacto espera do seu lançamento?

As fotografias que foram utilizadas no livro das Aldeias foram todas retiradas do meu projecto “Momentos Rurais”. Grande parte foram captadas a cerca de 100 km do meu domicílio em Aveiro, pelo que não pernoitava no local. Uma outra parte foi recolhida na região do Alto Barroso, e fiquei sempre hospedado na pensão “Casa do Preto”, em Pitões das Júnias, local que simplesmente adoro.

Quanto ao livro, penso que terá grande impacto junto de quem nasceu na aldeia e vive na cidade: leva-os numa viagem à sua infância, ou juventude. Também terá, julgo eu, grande impacto junto das comunidades de emigrantes, pela “Portugalidade” inerente às fotografias. Digo isto a julgar pelos comentários que tenho visto na página de Facebook das Aldeias de Portugal.

Como analisa a repercussão da Internet – e em especial das redes sociais – no turismo rural e na vida nas aldeias?
As redes sociais são o grande mecanismo de marketing do nosso século, pelo menos por enquanto. Hoje é possível difundir a informação a uma velocidade vertiginosa através das mesmas, por todo o país e pelo mundo, através das redes de contactos dessas mesmas redes. Acho que actualmente é possível, para qualquer apreciador da vida rural, estar permanentemente a par dos acontecimentos nas suas aldeias preferidas se as mesmas difundirem informação por essa via.

Das fotos que tirou até hoje nas aldeias, tem alguma preferida? O que o atrai na mesma?
Rural Trio” – uma das minhas fotos mais premiadas internacionalmente. Em 2010 recebeu uma menção de honra no concurso internacional da IPA – International Photography Awards, em Nova Iorque. Também já foi premiada em vários países da Europa, em muitas exposições e salões fotográficos.

No fundo, acho que esta foto reflecte a forma como nas aldeias se vive em harmonia com a natureza e com os animais.

Raio-X
O seu retiro rural favorito: Pitões das Júnias, Montalegre
Um livro que levaria consigo: Em breve, o livro das Aldeias de Portugal, para poder mostrar aos meus amigos rurais, pelo menos aos que ainda estão vivos, “como ficaram na fotografia”. Mais tarde levarei “Momentos Rurais”, isto quando terminar o projecto e editar um livro de fotografia muito extenso.
Uma viagem que ficou na memória: As várias viagens que faço pelo nosso Portugal Rural, acho que as tenho todas na memória.
Um colega cujo trabalho admira: Rui Palha, o oposto da fotografia rural, o Rui é um grande fotógrafo de cidade captando a vida das comunidades citadinas como ninguém.
A sua próxima viagem: Ultimamente por motivos de estar a realizar um documentário no Norte de Africa, é para lá que tenho viajado e para onde continuarei a viajar, isto sem descurar uns fins de semana em Pitões das Júnias quando e sempre que me for possível.
Um prato favorito: Um bom “Cozido Barrosão”.

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“Acho que a palavra chave do turismo rural é, sem dúvida, a qualidade” – Entrevista a Ana Silva O’Reilly

Ana Silva O’Reilly é uma travel blogger portuguesa que está praticamente a conquistar o marco das 200.000 visitas, apesar do seu blog de viagens – “Mrs. O Around The World” – ter menos de um ano.

A sua paixão por viajar levou-a a sítios incríveis, todos descritos no seu blog. De certa forma, converteu-se também numa embaixatriz do nosso país, partilhando com a sua audiência aquelas que considera as melhores coisas de Portugal, com os seus posts referentes à nossa cultura.

Nesta segunda edição das Entrevistas TR (Toprural) decidimos entrevistá-la para descobrir como é a vida de uma portuguesa à volta do mundo, conhecer a sua visão sobre o mundo rural português e o alcance do seu projecto.

Mrs. O Around The World

Como surgiu o blog?
Surgiu quase como uma brincadeira , no final de 2011. Sempre fui a “amiga” que viajava e a quem pediam recomendações de restaurantes, hotéis, etc quando os meus amigos queriam viajar. Tinha já uma série de emails prontos a enviar por cidade, devido aos pedidos. Decidi começar o blog desafiada por alguns amigos, mas nomeadamente devido à minha presença no Twitter e do meu alter-go, a Mrs. O Around the World (@mrsoaroundworld)

O teu blog está em inglés? Porquê em inglês?
Vivo em Inglaterra há 3 anos, vivi também em Espanha e tenho amigos em todo o mundo. Foi uma escolha natural.

Quais são os maiores obstáculos com que se depara uma travel blogger na promoção de um blog de viagens?
Tempo. Claro que nunca pensei que o mrsoaroundtheworld.com tivesse o nivel de aceitação que teve. Vou celebrar 10 meses brevemente e prestes a chegar ao visitante 200.000! Mas é preciso partilhar conteúdo, escrever e fazer com que as pessoas leiam. Muito tempo no twitter, facebook e outras plataformas.

Portugal anuncia-se suficientemente como um destino de turismo rural?
Nao. Internamente sim, mas a nivel internacional não tanto.

No teu blog vimos alguns posts que dizem respeito ao turismo rural. Como analisas a repercussão da Internet, em especial das redes sociais e os blogs, no turismo rural?
Acho que é essencial e uma muito boa forma de poderem chegar a outro tipo de clientes, nomeadamente internacionais. O exemplo da Fazenda Nova  que visitei recentemente, é extraordinário. Começaram a interagir comigo há mais de 6 meses e antes da abertura convidaram me para os visitar.

Piscina da Fazenda Nova no Alentejo

Fazes muitas viagens. Das visitas que já fizeste às propriedades rurais portuguesas, tiras alguma conclusão sobre as nossas eventuais vantagens em relação a outros mercados?
Eu pessoalmente adoro o conceito e acho que temos turismos rurais de muitíssima qualidade. Acho que a palavra chave aqui é, sem dúvida, a qualidade. É a única forma em que nos podemos diferenciar.

Neste âmbito do turismo rural, que tipo de actividades te dão maior prazer?
Adoro a calma e a tranquilidade. É bom parar, ler um pouco, comer bem e simplesmente estar. E Portugal dá-me isso de vez em quando.

Raio-X
O seu retiro rural favorito: A Fazenda Nova, perto de Tavira
Um livro que levaria consigo a um destino rural: Europe at 186 miles per hour, do Tom Chesshyre (estou a ler presentemente e a adorar. Visitar a Europa em comboio)
Uma viagem que ficou na memória: A minha lua de mel, em que demos a volta ao mundo, com uma paragem longa no Tahiti. Moorea foi o sitio mais bonito em que estive.
Um colega cujo trabalho admiraCélia Pedroso em Portugal e a blogger Leah Walker.
A sua próxima viagem: Vou a Dublin este fim de semana, celebrar o meu 3º aniversário de casamento e dizer olá à Lady Gaga. De seguida vou a Girona por motivos profissionais, cidade que não conheço ainda… as estou a contar os dias até chegar a Miami, no início de Outubro.
Um prato favoritoAmeijoas à bulhão pato, salmonetes grelhados e sangria de espumante. Numa praia. Em Portugal – não preciso de mais nada!