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“As aldeias têm muito para oferecer naquilo que é a extensão do produto original, o alojamento” – Entrevista a Paulo Costa

Esta é a primeira entrevista do ano e a mais recente da nossa série de Entrevistas Toprural.

Paulo Costa é um verdadeiro dinamizador da vida rural no nosso país. Ao criar uma página no Facebook dedicada às aldeias portuguesas, o empreendedor encontrou apoio e motivação em milhares de portugueses para continuar a sua luta (a caminho dos 400 mil seguidores!).

Que luta é esta? Vejamos como o Paulo vê a situação actual, tanto de uma perspectiva turística como social.

O que o levou a criar a página (Facebook) “Aldeias de Portugal” em 2010?
O projeto Aldeias de Portugal surgiu na sequência da minha “luta” pelo desenvolvimento do interior do país, algo pelo qual venho lutando desde sempre, mas principalmente desde 2006. Quando surgiu esta maravilhosa ferramenta de comunicação, o Facebook, percebi que tinha aqui a grande plataforma para elevar e demonstrar o enorme valor dos territórios rurais. Assim surgiu a página Aldeias de Portugal que, do nada, cresceu e se tornou numa avalanche motivacional para desenvolver um projeto superior, mais amplo.

O Paulo viveu na cidade, tendo decidido regressar à sua aldeia natal, Poiares. O que o levou a tomar essa decisão?
Eu cresci na aldeia, onde aprendi e apreendi os valores que pautam a vida rural. Depois saí por motivos académicos para o Porto, e seguidamente para Lisboa, onde trabalhei. Contudo, por mais que a vida profissional estivesse a correr bem, sentia-me uma pessoa pobre, pois faltava-me a essência da vida, o contato fraterno entre pessoas, a vida pura da aldeia. E após alguns episódios citadinos mais fortes e com as notícias permanentes sobre os níveis de desertificação e envelhecimento que assolam o interior de Portugal, despedi-me, fiz as malas e regressei à origem. Agora o objetivo é levar a origem ao mundo.

Quais as características que mais procura no turismo rural, e porquê?
O Turismo Rural é um turismo autêntico, sem superficialidades, onde encontramos o que existe, como existe, onde sentimos a vida tal como ela é e onde se é tratado com a mais pura das simplicidades. Turismo Rural não significa falta de qualidade, antes pelo contrário, significa que não consumimos algo que é “industrial”. A qualidade do turismo rural hoje em dia é de elevada sofisticação, pois a oferta tem vindo a preservar o autêntico e, ao mesmo tempo, a oferecer uma sofisticação máxima nos detalhes da oferta.

Como vê a relação entre o turismo rural e as aldeias? Acha-a positiva?
É urgente aumentar as pontes entre o agente de turismo rural e a população envolvente. As aldeias têm muito para oferecer naquilo que é a extensão do produto original, o alojamento. Será necessário capacitar as gentes da aldeia para receberem turistas, através de contos de histórias e da participação em atividades rurais do dia-a-dia, ou ainda para obter animação rural, como eu lhe chamo, que serão, por exemplo, as atividades normais da ruralidade com explicação. Um exemplo: fazer pão em forno a lenha.

Que desafios enfrenta o turismo rural?
O Turismo Rural enfrenta vários desafios, nomeadamente nas dinâmicas de animação. No entanto penso que o mais importante desafio que poderá enfrentar é a forma como se promove o produto e se gerem as reservas. Os agentes de turismo rural deverão estar preocupados com o “bem-receber”, com a preparação das dinâmicas necessárias para acolher e manter o turista com vida, e não com a promoção e reserva do espaço. Urge desenvolver as centrais de reservas rurais, focalizadas no perfil do turista rural.

É o autor de “Aldeias de Portugal – Histórias e Tradições”, livro que conta com fotografias de Rui Pires (também entrevistado recentemente). Qual o impacto esperado deste projecto?
É um projeto que visa a valorização do nosso património cultural e a revitalização do interesse por toda a riqueza que este tipo de cultura e território representam. Vivemos num país desequilibrado, desertificado, envelhecido e, mais preocupante, desinteressado. Este desinteresse tem muito a ver com a perca da nossa identidade, algo que nos territórios rurais ainda preservamos e estimamos. Este livro representa essa profunda identidade, os valores, as causas, o país.

A sua página das Aldeias no Facebook tem mais de 390 mil seguidores. Que recomendações daria a um proprietario de alojamento rural no sentido de aumentar a sua visibilidade nas redes sociais?
Um rede social é algo que permite criar laços sociais, logo o primeiro conselho que posso dar é que uma página no Facebook, no caso de uma unidade de turismo rural, é algo que tem de ir muito além da comunicação do negócio, é uma plataforma que tem que criar laços de afetividade com os seus públicos, interagir, aproximar, fidelizar emoções.

Para aumentar a eficácia desta gigantesca plataforma de comunicação é preciso regularidade, pois quem pergunta quer resposta “on time”, quer personalização. Outro aspeto importante é a qualidade das imagens publicadas, pois numa plataforma em que se publicam milhares de fotos por minutos é necessário ter qualidade e diferenciação no que se publica. Uma imagem vale por mil palavras… e numa plataforma onde as palavras caem às enxurradas…

Entendemos que o site Mundo das Aldeias procura revitalizar a economia das aldeias. Embora tenha sido lançado há pouco tempo, que resultados e/ou conclusões já retirou do mesmo?
Está a ser um enorme sucesso. É um projeto recente mas que prepara um vasto conjunto de novidades na oferta dos seus serviços. Para já não só despertou o interesse de milhares de pessoas que estão a adquirir produtos no site como também de vários produtores de todo o país que pretendem utilizar este portal para comercializar os seus produtos. Estamos certos que será um projeto válido e de enorme sucesso.

Quando o Paulo não está a trabalhar em prol das aldeias portuguesas, o que lhe ocupa o resto do tempo?
Eu lidero outros projetos, quer em Portugal quer noutros países. Em Portugal organizo a Meia Maratona do Douro Vinhateiro – A MAIS BELA CORRIDA DO MUNDO, um evento que atrai dez mil pessoas de mais de vinte países e que é cada vez mais uma referência global. Além disso lidero também uma empresa de exportação de produtos endógenos, EMCODOURO, empresa com sede em Vila Real e com filial em São Paulo.

Raio-X
O seu retiro rural favorito: A minha aldeia, Poiares, no concelho de Peso da Régua
Um livro que levaria consigo: “A Ira dos Anjos” (Sidney Sheldon)
Uma viagem que ficou na memória: Chichen Itzá
Um colega cujo trabalho admira: Jorge Pegoraro
A sua próxima viagem: Pequim, já este mês
Um prato favorito: Arroz de feijão com bife de presunto

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E também já entrevistámos o fotógrafo Rui Pires, colaborador no livro “Mundo das Aldeias – Histórias & Tradições”. Leia aqui.

“A fotografia é um bom meio de mostrar às gerações futuras um modo de vida que temo estar em extinção” – Entrevista a Rui Pires

Rui Pires é um fotógrafo português que foi já várias vezes premiado tanto a nível nacional como internacional. Membro da Photographic Society of America, a sua especialização é a fotografia documental, sobretudo a preto e branco.

Momentos rurais | Rui Pires

Em 2006 iniciou o ambicioso projecto “Momentos Rurais“, onde visa capturar a essência da vida longe da metrópole lusa, e dar a conhecer ao mundo a realidade actual portuguesa. Na Toprural estávamos bastante interessados em descobrir a visão do Rui em relação ao turismo rural, e conhecer melhor o seu trabalho. Por isso decidimos entrevistá-lo. Eis o resultado:

Rui, já realiza fotografia documental há muitos anos, sobretudo no âmbito rural. Como surgiu esta dedicação?
A minha família do lado paterno tem origens em meios rurais da Beira Alta. Desde muito novo que comecei a passar muito tempo com os meus avós nestes meios essencialmente rurais, essencialmente férias de verão. Essa memórias de infância, de um Portugal profundamente rural onde o homem vivia em harmonia com a natureza, os animais e as suas culturas levaram-me a iniciar este projecto, “Momentos Rurais”, nas poucas aldeias portuguesas que ainda vivem essencialmente da agricultura e pastorícia de uma forma comunitária.

A fotografia é um bom meio de mostrar às gerações futuras um modo de vida que temo estar em extinção, e que decerto não vão ter oportunidade de conhecer. Embora me pareça que ultimamente o designado “êxodo rural” tenha abrandado, devido à crise económica e níveis de desemprego nas grandes cidades. Mesmo os mais novos sentem alguma dificuldade em sair da aldeia por questões económicas. Por um lado, isso pode potenciar uma diminuição da desertificação das nossas aldeias; por outro, é essencial apoiá-los a desenvolverem projectos sustentáveis que lhes permitam a vida na aldeia.

Que obstáculos encontra neste tipo de projecto?
A nível de projectos de Turismo Rural, o único obstáculo que se me afigura é a mesma crise económica que referi anteriormente. Por um lado, a escassez de crédito para iniciar projectos nesta área; por outro, a falta de poder de compra, o custo dos combustíveis, as portagens nas SCUTS, e tudo isso que cada vez mais cria obstáculos à deslocação de turistas para os meios rurais.

No que diz respeito às aldeias, como vê o papel do Turismo Rural em relação às mesmas? Acha que este poderá ter algum papel decisivo na revitalização de algumas povoações?
Ultimamente tenho desenvolvido um projecto documental no Norte de África onde é possível encontrar muitas casas de aldeia a serem reconvertidas para turismo, um pouco do que é feito cá em Portugal. Antigas “Kasbahs” (edificações fortificadas) transformadas em albergues rurais e em hotéis. Todas essas iniciativas assentam num forte sentido comunitário, onde por cada turista que recebem, uma determinada verba resulta para projectos de apoio à aldeia, às suas cooperativas de artesanato, aos grupos culturais e até para projectos de apoio a pessoas da própria aldeia com incapacidades e doenças. Por outro lado também criam postos de trabalho para a juventude local, tanto a nível interno da própria unidade hoteleira como a nível externo, nomeadamente a guias, guias de montanha, grupos de musica tradicional, etc.

Acho um bom exemplo a aplicar cá, embora também conheça casos destes no nosso país. No entanto, o problema por cá derivado da crise é a própria sustentabilidade de muitos projectos deste tipo, não sendo possível aos mesmos apoiar financeiramente projectos satélite com vista a dinamizar a aldeia onde estão incluídos.

Está para breve o lançamento do livro “Aldeias de Portugal – Histórias e Tradições de Paulo Costa, e com fotografia sua. No decorrer do processo, onde ficava hospedado? E além da preocupação do livro com a preservação da tradição e cultura portuguesa, que impacto espera do seu lançamento?

As fotografias que foram utilizadas no livro das Aldeias foram todas retiradas do meu projecto “Momentos Rurais”. Grande parte foram captadas a cerca de 100 km do meu domicílio em Aveiro, pelo que não pernoitava no local. Uma outra parte foi recolhida na região do Alto Barroso, e fiquei sempre hospedado na pensão “Casa do Preto”, em Pitões das Júnias, local que simplesmente adoro.

Quanto ao livro, penso que terá grande impacto junto de quem nasceu na aldeia e vive na cidade: leva-os numa viagem à sua infância, ou juventude. Também terá, julgo eu, grande impacto junto das comunidades de emigrantes, pela “Portugalidade” inerente às fotografias. Digo isto a julgar pelos comentários que tenho visto na página de Facebook das Aldeias de Portugal.

Como analisa a repercussão da Internet – e em especial das redes sociais – no turismo rural e na vida nas aldeias?
As redes sociais são o grande mecanismo de marketing do nosso século, pelo menos por enquanto. Hoje é possível difundir a informação a uma velocidade vertiginosa através das mesmas, por todo o país e pelo mundo, através das redes de contactos dessas mesmas redes. Acho que actualmente é possível, para qualquer apreciador da vida rural, estar permanentemente a par dos acontecimentos nas suas aldeias preferidas se as mesmas difundirem informação por essa via.

Das fotos que tirou até hoje nas aldeias, tem alguma preferida? O que o atrai na mesma?
Rural Trio” – uma das minhas fotos mais premiadas internacionalmente. Em 2010 recebeu uma menção de honra no concurso internacional da IPA – International Photography Awards, em Nova Iorque. Também já foi premiada em vários países da Europa, em muitas exposições e salões fotográficos.

No fundo, acho que esta foto reflecte a forma como nas aldeias se vive em harmonia com a natureza e com os animais.

Raio-X
O seu retiro rural favorito: Pitões das Júnias, Montalegre
Um livro que levaria consigo: Em breve, o livro das Aldeias de Portugal, para poder mostrar aos meus amigos rurais, pelo menos aos que ainda estão vivos, “como ficaram na fotografia”. Mais tarde levarei “Momentos Rurais”, isto quando terminar o projecto e editar um livro de fotografia muito extenso.
Uma viagem que ficou na memória: As várias viagens que faço pelo nosso Portugal Rural, acho que as tenho todas na memória.
Um colega cujo trabalho admira: Rui Palha, o oposto da fotografia rural, o Rui é um grande fotógrafo de cidade captando a vida das comunidades citadinas como ninguém.
A sua próxima viagem: Ultimamente por motivos de estar a realizar um documentário no Norte de Africa, é para lá que tenho viajado e para onde continuarei a viajar, isto sem descurar uns fins de semana em Pitões das Júnias quando e sempre que me for possível.
Um prato favorito: Um bom “Cozido Barrosão”.

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